Atuação clínica – EMDR

Trauma, em grego, quer dizer ferida. Quando se pensa nessas duas palavras, a tendência é imaginar que se tratam de aspectos essencialmente psicológicos. Entretanto, recentes pesquisas sobre o cérebro mostram que não só as emoções são prejudicadas, mas também o funcionamento cerebral fica alterado diante de um trauma.

Como nossa mente reage a um trauma e como encontramos na própria mente a cura para ele?

Grande parte dessas pesquisas é mérito da Dra. Francine Shapiro, que, desde 1987, tem desvelado alguns mistérios do cérebro e apontado meios de como “provocar” sua cura. Francine recebeu o prêmio de Realização Científica Distinta em Psicologia da Califórnia e o Prêmio Internacional Sigmund Freud, em 2002, para Psicologia, oferecido pela cidade de Viena.

O método de tratamento criado por ela – EMDR (Eye Movement Desensitizationand Reprocessing) Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares – é oficialmente reconhecido pela Associação Americana de Psicologia e pela Sociedade Internacional para Estudos sobre o Estresse Traumático, já foram treinados quarenta mil terapeutas pelo Instituto EMDR, na França, Suécia, Alemanha e na Holanda, algumas faculdades de Medicina e departamentos de Psicologia estão começando a ensinar o método EMDR.

David Grand, com quem Adriana teve o prazer de estar algumas vezes, escreveu em seu livro “Cura emocional em velocidade máxima” (2007) que a descoberta de Francine Shapiro o convenceu de que milagres são possíveis.

Esly Carvalho, que difundiu o EMDR pelo Brasil, e é uma das grandes responsáveis pela transformação da atuação clínica da Psicóloga Adriana, também acredita em milagres. Como David Grand disse (2007, p.30): “As únicas respostas significativas se encontram na mente, no corpo e no espírito do paciente.”

Para Francine Shapiro (2006), um trauma é uma experiência fisicamente armazenada no cérebro inadequadamente. Como ela diz: “Uma forma errada da memória.” Se pedirmos a um paciente para lembrar-se de uma situação que o fez sofrer e, ao mesmo tempo, monitorarmos o funcionamento cerebral por meio de ressonância magnética, observaremos que há maior atividade no hemisfério direito do cérebro, em contrapartida, parte do córtex pré-frontal fica sem ativação.

Considerando que o lado direito do cérebro é nosso cérebro emocional, e o córtex pré-frontal é o cérebro racional, poderia se pensar que diante de um trauma ou da lembrança de um trauma, a pessoa fica “burro”, não pensa, apenas sente.

Na vida, com certeza nos deparamos com amigos ou parentes que tentamos ajudar com conselhos ou orientações. Algumas vezes, nos sentimos frustrados porque parece que aquela pessoa “não me ouve”, ou “não me entende”. De fato, ela não está entendo, porque parte de seu cérebro está bloqueada. Não há conexão entre razão e emoção. Ela pode até ouvir, mas isso não afeta a emoção.

Ao vivenciar um grande trauma, as informações perturbadoras ficam armazenadas no cérebro. Se conseguirmos reagir a um evento traumático como, por exemplo, um assalto, e conseguimos lutar ou fugir, nos lembraremos disso para sempre, porém, isso não nos impedirá de prosseguirmos com a nossa vida. Saímos do evento sabendo que fizemos tudo o que era possível: lutamos, sentimos raiva, choramos… É até possível que saiamos dessa situação com ideias positivas sobre nós mesmos, e isso pode afetar positivamente a nossa vida (frases como, “sou forte”, “eu consigo”, “sou protegido por Deus”, “eu venci”).

Porém, se ocorrer o contrário, ou seja, ao invés de reagirmos ao evento traumático nós ficarmos paralisados, a imagem do evento ficará congelada. O sistema natural que existe em nosso cérebro para processar essas informações fica bloqueado. E a cura desse trauma, que poderia acontecer ao longo dos dias de forma natural, é impossibilitada de ocorrer justamente por esse bloqueio. Frases oriundas dessa situação poderão afetar a nossa vida negativamente para sempre (“sou sujo”, “sou fraco”, “sou culpado”, “sou indigno de ser amado”, “não posso confiar em ninguém”).

Isso se dá porque a informação ficou congelada no tempo, isolada em sua própria neurorrede (algo similar a uma “quadra” que se constrói no cérebro para que algumas emoções possam “morar”), como explica Francine Shapiro (2001, p.47): “Uma vez que seus receptores biológicos, químicos, elétricos não são capazes de facilitar adequadamente a transmissão entre as estruturas neurais, a neurorrede na qual a velha informação encontra-se armazenada fica, na prática, isolada”. Isso, de certa forma, explica por que pessoas com grandes traumas fazem anos de terapia verbal ou leem livros de autoajuda e conseguem apenas avanços pequenos: as informações positivas (aprendidas com os livros, palestras, orientações), residem em sua própria neurorrede que, por sua vez, não consegue se comunicar com a neurorrede isolada do trauma.

Aliás, diante de um grande trauma, as experiências positivas perdem força. Francine Shapiro (2006) diz que “se uma pessoa está mal, não significa que não tenha experiências positivas. Significa que não tem acesso a elas.”